O Botafogo de Cada Um

Thiago Pinheiro
4 min readApr 9, 2018
Estava escrito

Eu soltei algum palavrão. Não podia acreditar que aquilo tinha acontecido. A bola era nossa em algum ponto do ataque e ela foi perdida. Bastava alguma falta normal seguida de alguma cera e estaria decretada a igualdade. OK, sem problemas. Só que houve mais e o lado incerto do Estádio Nilton Santos pôs-se a comemorar enquanto eu tomava o rumo da saída.

A semana passou-se comigo a remoer aquele gol. Eu ainda achava que alguém deveria ser castigado por termos concedido aquela vantagem. Era cruel. Eu só conseguia pensar que aquilo nos custaria caro demais…

Só que sempre há algo a ser mudado. Não era possível que um simples gol nos custasse a sanidade e o título enquanto havia outra metade a se desenrolar e determinar o resultado. E aí que se entende melhor o que sentimos. Acompanhe os parênteses.

Cada um de nós tem o seu Botafogo. Sim, nós não entendemos por Botafogo apenas o time que entra em campo, o seu estádio, a sua sede ou a sua história. Há mais dentro das nossas cabeças quando mencionam o nome que tanto nos emociona.

Para alguns, pode incluir a lembrança do pai que não mais o acompanha nas arquibancadas. Para outra pode ser o namorado que conheceu na longa fila para comprar um cachorro-quente em algum jogo da 2ª rodada do Carioca…

E é esse entendimento que determina o nosso envolvimento. Talvez, de maneira arrogante, posso concluir que, há uma relação direta entre a intensidade de cada item da sua lista relacionada ao Botafogo com o quanto você se importa.

Este é o meu. Eu odeio aquelas filas em General Severiano e no Estádio Nilton Santos. Remete-me ao passado em plena era da pós-modernidade e ser retrô é algo que nem sempre é bom. Mas saber que botafoguenses estavam passando por um sacrifício desnecessário primeiro revolta, depois dá mais forças.

E esse sentimento acabou por ser compartilhado; era cada um fazendo mais um pouco, cada um fazendo o possível para romper toda a adversidade e ter todo mundo lá naquela final.

O meu Botafogo são os jogos, o time, a história, os amigos e os torcedores. Eu canso de me pegar ignorando o campo e observando as reações das pessoas, ver os jogos pelo rosto delas. Como cada um sofre e se anima. Por que, o meu Botafogo é estar naquelas arquibancadas sempre que possível — e isso é sempre. Mas essa não é a realidade da maioria. Para alguns, como o amigo José Passini, sempre é mas, desta vez, só se tornou verdade bem próximo à partida. Do outro lado, vinda lá de Santa Catarina, a Maria Eduarda realizava a sua primeira ida ao Maracanã — e que primeira vez.

Fechando os parênteses, como não pensar nos dois quando o outro lado já comemorava e lamentar aquela bola maldita que entrou na outra semana? De cada um que sofreu durante o longuíssimo 2017 e estava ali, renovado, pronto para zerar tudo e apenas ser feliz?

Após o Léo Valência ser expulso e eu listar — em voz alta — todas as qualidades na sua personalidade que eu admiro, as mãos esfregaram o rosto e eu voltava a observar. Quantos dali já pensavam nas desculpas no trabalho ou simplesmente repetiam a promessa de nunca mais voltar a ver esse time?

(crédito: Vitor Silva)

A esperança parecia perdida. Poucos, é verdade, se colocavam na direção das saídas, mas o ânimo não era mais o mesmo. Até que, não me perguntem como, a bola chegou ao ataque. Os olhos brilhavam, a crença em um mundo melhor voltava enquanto a bola rebatia de um lado para o outro na área próxima à nossa torcida.

Eu não vou mentir para vocês, eu não tenho a menor ideia do que aconteceu. Eu estava ali, olhando, mas em algum momento alguém dominou a bola e chutou.

Era bom demais para ser verdade. Eu não queria acordar ou que o tempo passasse. Eu olhava para o lado e vi uma massa pulando e se jogando pelas escadas de forma que todas as pessoas estavam embaralhadas e várias novas amizades foram feitas. E eu olhava para aquele bandeirinha correndo até o meio-campo e entendia. Sim, o Botafogo acabava de fazer o que nós sempre desejávamos.

Era improvável. Era melhor do que cada um de nós poderia imaginar. Era melhor do que ir para os pênaltis e ter o Gatito como goleiro.

A partir dali, não havia a menor chance de nós não estarmos em General Severiano comemorando o título do Campeonato Carioca. O mundo poderia até tentar ser ruim conosco, mas como ele teria chance contra aqueles passos lentos e decididos do Gatito rumo ao gol na hora das cobranças?

O Botafogo venceu de todas as maneiras possíveis, dentro e fora de campo. O Botafogo, o nosso Botafogo, é, também, campeão carioca.

Que noite!

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Thiago Pinheiro

Jornalista e fugitivo arrependido do curso de Literatura