O que eu vi na Ucrânia — Sobre os protestos em Kiev

Thiago Pinheiro
5 min readMar 24, 2022

Respostagem do meu blog em 25 de janeiro de 2014 após a Euromaidan. Ali já dava para perceber o enorme ressentimento dos jovens em relação aos russos e o desejo de se integrar mais à Europa

Padres ortodoxos rezam em frente aos policiais e população que protesta (foto de James Poulos)

A situação está crítica em Kiev (ou Kyiv) há muito tempo. A população tomou a Maidan Nezalezhnosti, a praça no centro da cidade onde ocorrem as manifestações (a Revolução Laranja foi lá) e há um acampamento permanente. Podemos fazer várias relações com o Brasil, embora lá seja a classe média o motor dos acontecimentos. Parecido com o que vimos aqui em junho de 2013.

A Maidan Nezalezhnosti (foto: Thiago Pinheiro)

Coincidentemente, eu estava em Kiev quando ocorreram as manifestações contra tudo e contra todos nas capitais brasileiras no ano passado. Em andanças e conversas pela capital da Ucrânia, com as pouquíssimas pessoas que falavam inglês, além de algumas pesquisas anteriores à viagem, ficou claro o ressentimento, principalmente entre os mais jovens, em relação à Rússia. Os protestos não são apenas um repúdio em relação às negociações com Moscou que acabou por afastá-los um pouco da União Europeia, mas, também, uma questão de identidade.

A Ucrânia é um país que, durante muito tempo esteve sob o jugo da Rússia (ou União Soviética). O próprio nome do país, em eslávico antigo, significa “Terra Fronteiriça” (da Rússia, claro), embora alguns outros argumentem que significa “Terra Natal”. E se o nome significa uma região, torna-se obrigatório o uso do “the” antes do nome. Embora, claro, os ucranianos defendam, com razão, que sejam um país, não apenas um lugar.

A conta do restaurante veio nesse envelope vom os dizeres “território da URSS (foto: Thiago Pinheiro)

Um texto da Business Insider explica que até a questão do uso do artigo em inglês “the” (“a”) é problemático, pois quase nenhum país recebe o artigo antes do nome. A queixa tem origem lá atrás, quando do domínio soviético o nome do país era “a República Socialista Soviética da Ucrânia”, com o artigo incluído.

Falando do que vi, a Ucrânia é um país caro com a população aguentando uma carga de trabalho puxadíssima com salários muito baixos. No albergue que fiquei (“Dream House Hostel”), as funcionárias do restaurante trabalhavam doze horas por dia, com uma folga semanal. Na recepção, a carga girava em torno das dez horas diárias — e a situação não era muito diferente nos demais setores da economia, pelo que me contaram lá.

Falando da União Europeia, há uma taxa de 35 euros para os ucranianos conseguirem um visto para a região, fora a burocracia. 35 euros é um preço elevado para eles.

OBS: A exigência do visto caiu em 2017.

Fachada de um prédio do centro de Kiev

Os preços dos aluguéis no centro da cidade e arredores é muito caro, o que força a população que trabalha no comércio a viver em regiões bem afastadas. Como o transporte é caótico e o metrô, embora muito maior que o do Rio de Janeiro, não atenda boa parte da cidade, o resultado são horas de engarrafamento.

Uma curiosidade: em Kiev, nos velhos ônibus, você entra, senta e vai passando a passagem por cima dos ombros até chegar ao motorista. Todo mundo vai esticando a mão de forma rotineira até o dinheiro chegar lá na frente.

Um “camelódromo” no centro de Kiev. Curioso é ter a renomada estilista Viviene Westwood ali.

Tudo muito parecido com o Brasil, não é? Lá também há uma burocracia enorme, ainda fruto dos anos de dominação comunista — que, aliás, ainda podem ser vistos em placas dos velhos prédios na parte antiga do centro da capital. A corrupção é grande, o estado continua a usar de sua força contra a população e há um medo grande da polícia. Na parte antiga do centro onde fiquei, as luzes da maioria das ruas são apagadas após 23h, quando pouquíssimos se arriscam a andar na rua. Eu perguntei se era perigoso, pois adoro andar nas cidades durante a madrugada, e me falaram para tomar cuidado justamente com a polícia. Um grupo de americanos e canadenses do albergue contou que foram abordados por policiais e, como estavam sem passaporte, foram forçados a andar a esmo até entenderem que deveriam pagar uma quantia para serem liberados — lá não são tão diretos como aqui.

foto por Thiago Pinheiro

Existem diferenças, claro. Os protestos, por exemplo, são focados na renúncia do presidente e são muito mais organizados do que os que aconteceram por aqui. Talvez, na Ucrânia, o início possa também ter sido espontâneo, mas eles souberam transformar a insatisfação e criar um foco. Além disso, por ser um país menor e com a capital na sua principal cidade, ajuda a integrar as pessoas. Fora, claro, todo o histórico de insatisfação com a Rússia e com os próprios rumos do país.

Dificilmente a Ucrânia escapará das mudanças. Temo que o Brasil tenha rendido apenas boas imagens para os comerciais e propagandas políticas.

A estátua da Mãe Pátria (foto por Thiago Pinheiro)

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Thiago Pinheiro

Jornalista e fugitivo arrependido do curso de Literatura