“Por Dois Mil Anos”: um retrato de uma época que deveria ser exceção

Thiago Pinheiro
4 min readOct 5, 2021

O livro de Mihail Sebastian fala de solidão e do antissemitismo na Romênia nos anos 20 e 1930. Mas, um século depois, é possível se identificar com o autor.

Há pouco tempo, Samantha Rose Hill, biógrafa da Hannah Arendt, escreveu no Twitter pedindo a opinião das pessoas sobre o personagem mais solitário da Literatura. Imediatamente, veio-me à cabeça o nome de Holden Caulfield, o personagem principal de “O Apanhador no Campo de Centeio”.

Enquanto lia “Por Dois Mil Anos”, do romeno Mihail Sebastian (nascido Iosif Mendel Hechter), fui mudando de ideia. Neste livro, o personagem principal — sem nome — é, apesar de todas as suas relações — um solitário. E se a solidão pode ser imposta ou escolhida, qual das duas é a mais forte? Se for a imposta, não há uma chance de reconciliação? É uma boa discussão; mas temo que nos afaste dos pontos principais dos dois livros.

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“Por Dois Mil Anos” é um diário fictício sobre a vida de um judeu na Romênia durante as décadas de 1920 e 30. Pelas páginas, acompanhamos o crescimento do narrador, passando pela universidade até a vida profissional. Choca bastante o tratamento e a naturalidade das ofensas e agressões ao autor e amigos pelo simples fato de ele ser judeu.

Lançado em 1934, é um retrato do antissemitismo da sociedade europeia, narrado muito bem em diálogos entre o protagonista e os demais personagens, em uma riqueza de detalhes e informações. Há frases memoráveis, que nos fazem correr para procurar o marcador de texto. Em determinado momento, cansado das discussões, o protagonista pensa:

“Afinal, que eu sou? Uma máquina de discutir?

Que vai me dizer esse homem? E o que eu vou dizer a ele? E quem vai separar a verdade dele da minha? E que bem vai fazer todo esse tempo perdido, todas essas palavras ao vento?”

É um pensamento atual, que poderia ser repetido tantas vezes por nós quanto o mundo ao nosso redor aturasse ouvi-lo. E o fato de ele poder ser repetido, é um péssimo sinal do momento no qual vivemos.

Falando em atualidade, há uma discussão sobre o que passamos a chamar de “fake news”. Em resposta a um antissemita que mentia sobre o número de judeus, o narrador afirma:

“(…) Você dizia há pouco que existem na Romênia um milhão e oitocentos mil judeus. De onde tirou esse número?

- Como de onde? Eu sei. Todos sabem.

- “Todos sabem” é um tanto vago.”

Não há aí nenhuma frase genial, mas ela retrata bem o espírito de uma época que, como sabemos, levou ao Hitler e os campos de concentração. O lançamento do livro, em 1934, deu-se apenas um ano após a chegada do nazista ao poder. Mas a Europa já era costumaz em fazer “pogroms” (ataques violentos contra uma determinada etnia ou religião) contra os judeus nas primeiras décadas do século XX.

Ditadores não são criados do nada. Em geral, eles são fruto de uma sociedade que anseia pelo autoritarismo. Há outro diálogo que ilustra bem essa ideia:

“(…) Não acha que a sua “revolução” é uma palavra nova demais para uma miséria antiga demais?

Ele franziu o cenho e respondeu:

- Olhe, estamos na seca e estou esperando a chegada da chuva. E você fica aí dizendo: “A chuva será boa e seria ótimo que viesse, mas, e se vier com granizo? E se vier uma tormenta? E se estragar as minhas plantações?” Pois bem, eu respondo: não sei como será essa chuva. Só quero que venha. Isso é tudo. (…). Do dilúvio podem escapar um ou dois. Da seca, não escapa ninguém.”

(…)

Cansado, o autor apenas anota no seu diário a resposta que gostaria de dar:

Poderia ter respondido a ele. Poderia ter-lhe dito que uma metáfora não basta para respaldar um massacre.”

Embora eu tenha, talvez, dado demasiada ênfase no antissemitismo e que ele permeie todo o livro, não é o único tema tratado pelo autor. Há a sua relação com os professores, colegas de trabalho e casamento, por exemplo. A velocidade de um diário e a possibilidade interromper um assunto abruptamente ajudam a ampliar o leque de assuntos e passar por outros rapidamente.

Por fim, um detalhe interessante sobre o livro, mas fora dele. Iosif Mendel Hechter era, claro, judeu e tinha apenas 26 anos quando lançou “Por Dois Mil Anos”. Nessa época, já pertencia a um grupo famoso de intelectuais romenos chamado “Criterion”. Ali, por sua origem judia, Iosef não era popular, mas, mesmo assim, ele tomou um passo ousado. Pediu a um dos líderes do Criterian, Nae Ionescu, antissemita declarado e apoiador da Guarda de Ferro (grupo fascista da Romênia) que escrevesse o prefácio do livro.

O resultado disso foi, claro, um desastre. Ionescu escreveu um texto cheio de preconceitos, contrariando o próprio livro. Mas Iosef fez, segundo ele, a “única vingança inteligente possível” e publicou o prefácio preconceituoso. Obviamente, o escritor passou a ser atacado tanto pelos judeus, quanto pela direita e pela esquerda.

Depois, ele escreveu “Como eu virei um Hooligan”, com respostas às muitas críticas recebidas pelo “Por Dois Mil Anos”. Infelizmente, esse não foi lançado no Brasil. Mas há o seu diário — este verdadeiro — datando os anos de 1935 até 1944. Em 1945, logo após o fim da guerra, Mihail Sebastian é morto atropelado por um caminhão da ocupação soviética.

“Por Dois Mil Anos”, Mihail Sebastian, 1934. Tradução de Eugenia Flavian. Editora Amarilys. Compre aqui neste link (associado).

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Thiago Pinheiro

Jornalista e fugitivo arrependido do curso de Literatura