Queimem os Portos (Um manifesto da solidão)
Um poema sobre a solidão auto-infligida em tempos bárbaros
Ainda não tinha entendido direito o que via
escombros, caos, poeira
Abriu uma porta e era o que mais temia
O horror dominava, vencendo a calma
ali havia gente
agora, estranhamente, sem viva alma
Recobrava-se ainda da grande surpresa
limpou o suor, balançou o rosto
estava, agora, sozinho? — e não havia certeza
Ao ganhar as ruas, avançou a indefinição
O caos crescera, só havia destruição
Por onde enxergava, não havia mais cor
Era cinza, por tudo, sem tirar nem por
Arremeteu-se pelas casas — ou o que sobrara
Iludia-se por uma resposta,
mas, para ele, nem a pergunta era clara
Enfim, andou, andou bastante
ao longe, uma surpresa
Uma casa amarela, daquele vibrante
Era real? O seu desespero levou-o à ilusão?
Um colorido, enfim
No meio das sombras, a salvação?
Correu depressa para a porta
Ao abrir, o que pensar
Nessa situação, o vazio corta
A casa, ela, estava bem natural
Fotos, talheres, residência normal
Havia, sim, algo diferente
Sim, infelizmente, faltava gente
Nem se lembrava de ter subido
Jogou-se na cama
Um estranho tomaria como jazido
Estranho, claro, não havia
Levantou-se e saiu
Achou o que ele ainda temia
Nada diferente do que havia encontrado
O mesmo cinza
Os mesmos tijolos — tudo soterrado
O caminho era sempre a primeira vez
Não reconhecia nada
Ou a destruição renovava? Hum, talvez…
Chegou… a um lugar que não estranhava
Era diferente
Mas a aura, sei lá, o lembrava
Lembrava que era ali que ele existia
Que estavam todos que com ele dividia
A existência, os amores, a vida
mas a vida mudara, ficara dividida
Eram todos se separando
muros aumentando
o caos prevalecendo
e todos se protegendo
E quem não tomova abrigo
(leia-se, ha!, partido)
não tinha proteção
vivia (é, para eles) em vão
Em vão, não se pode viver
“É um desperdício”, eles vão dizer
“Em uma guerra”, não sabia
“luta-se”, alguém imporia
Agora, acho que entendi
Não foi somente eu que sobrevivi
Eu acordei, tudo continua igual
Não mudei, acho, continuo normal
Eu entendi, agora, o que houve
A casa amarela
Os muitos escombros
Era, simples
tudo era, na verdade
peso nos meus ombros
O mundo mudou
O entorno, eles
Todos mudaram
E nessa mudança,
todos eles,
me afastaram
Decerto, eles
estão em uma espécie
de guerra, aposto sangrenta
Que os consome
dia e noite
de maneira bem lenta
não que eu seja superior
por favor
só quero o conforto
de não ter um porto
para onde correr
quando a razão morrer
Por que, afinal, ser livre
É a possibilidade de errar e mudar
É. E gostar